Como uma árvore feliz

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Publicado originalmente no portal Conexão Planeta em 2 de fevereiro de 2016
Meu conceito de felicidade é a capacidade de realizar plenamente o propósito em vida. Quando olho para as árvores, sinto que elas são plenas, em um nível bem mais confortável e desenvolvido do que qualquer outro ser vivo deste planeta.

Talvez isso aconteça porque estão aqui há muito mais tempo do que nós, parecem ter uma sabedoria das relações, interações, ofertas e presentes que recebem da vida na Terra. Talvez por que elas não gastem energia falando (rsrsrs), ou com coisas além de sua existência e das relações que tangem suas vidas. Elas produzem o próprio alimento, nutrem o solo onde vivem, resguardam água em seu corpo quando vivem em ambiente seco ou desenvolvem estruturas de copa e tronco que dançam com a força das chuvas e dos ventos.

Durante os Passeios Verdes que realizo com o Instituto Árvores Vivas (que idealizei em 2006), conto sobre as árvores a partir das sementes. Essa percepção holística e integral nos ensina muito sobre nossa própria vida.

Quando o fruto já está maduro, as sementes estão férteis, receberam toda proteção e os nutrientes necessários para seu desenvolvimento. Esse fruto usa da sua melhor estratégia para permitir o tempo ideal de amadurecimento e o melhor lugar de distribuição de sementes férteis, fortes e saudáveis. Para isso, oferece sabor adocicado, cor chamativa, desenho e formato curiosos – especialmente alinhados com o desejo e o interesse do dispersor, que levará essa semente para um outro local onde a nova árvore crescer. Também usa estruturas engenhosas que voam alto e longe com o vento, vagens que se retorcem com força e propulsão incríveis, arremessando para longe as sementes, ainda aquele chumaço de fibra leve e fofa que voa carregando as sementes protegidas.

São muitas as maneiras desenvolvidas pelas árvores para levar para longe suas sementes, dando assim mais chances de sobrevivência e continuidade à espécie. Muitas dessas soluções só acontecem com a ajuda dos animais, outras dispõem de sistemas elaborados pela relação íntima com o lugar onde as espécies vivem por milhares de anos.

Quando a semente chega ao chão, ela pode ter a sorte de encontrar um local adequado para germinar, com terra aerada, com certa umidade, recebendo o calor do sol da manhã ou ainda sol direto e forte. Algumas vezes, pode encontrar um local sombreado, ou até um pequeno e estreito espaço. Quando a semente chega nesse local, se depara com um momento da sua vida bastante intimidador e duvidoso, mas, ao mesmo tempo, um dos mais preciosos e importantes para sua evolução: ela tem que “decidir” se este será o local onde vai germinar, onde viverá toda a sua vida.

A natureza das árvores e das plantas é fixa. Onde elas germinam – isso ao menos antes do ser humano plantá-las, em sementeiras e viveiros – vivem o resto de suas vidas. E, neste momento, quando ela lança ao solo sua primeira raiz, firma o principal compromisso da sua existência: ser o melhor que pode, todos os segundos e dias, oferecendo sua essência e seu potencial para o planeta e o local que acolhe sua vida. Ou, melhor dizendo: realizando, de maneira plena, a essência que habita essa semente, seja ela uma embaúba, um jequitibá, um pau-brasil ou um araribá.

Diferente de nós, as sementes não reclamam que caíram naquela frestinha em meio ao concreto ou na praça, sem nenhuma outra companheira arbórea, ou no meio da floresta densa. Não questionam porque são de uma espécie do Cerrado ou da Amazônia, da Caatinga ou do Pantanal. Onde quer que estejam, elas irão sempre dar o melhor do seu ser, independente dos desafios, presentes, dificuldades, bênçãos ou percalços que possam sofrer e receber ao longo da vida.

A vida das árvores pode durar muitos e muitos anos, até mais de mil anos dependendo da espécie, ou, um breve momento, quando – ainda em seus primeiros esforços de crescimento – pode servir suas novas folhas, tenras e macias como alimento para um inseto; ou, ainda, correr o risco – quando pequena – de ser pisoteada por um animal maior do que ela. Pode até ser um humano que caminha sem atenção. Às vezes, uma semente pode esperar muito tempo para ganhar a chance de germinar, ficar quieta na sombra das folhas da serapilheira, sob a copa das grandes árvores, esperando o dia em que uma “irmã mais velha” cairá para abrir clareira na floresta e dar chance para novas plantas se desenvolverem.

A dinâmica das florestas e da natureza é realmente sábia. Gerar flores e frutos que portam preciosas sementes é um processo natural que pode, muitas vezes, ser acelerado, forçado em extremos ou, até, pausado, dependendo da condição de vida da árvore. Se ela se sente ameaçada, por exemplo, irá produzir frutos em excesso para garantir a continuidade da espécie. Se ela sente que o momento não é propício para reprodução, pausa o processo, segura a florada, corta o processo de floração no meio, pois, de antemão, percebe que não conseguirá desenvolver bem seus frutos e sementes.
Por isso, todos os dias, ao contemplar a natureza, reforço meus valores de agradecimento, respeito e admiração por todas as árvores. Com elas, aprendo e busco praticar – sempre, ao me deitar -, que dei o “meu melhor” e fiz tudo que poderia para honrar minha parte na rede de relações com todos os seres deste planeta.

Com elas, aprendo que a vida é para buscar a expressão mais plena do meu ser e das minhas relações. Que quanto mais em sintonia com a essência da semente que um dia fomos, a rede de interações e o espaço em que estamos, mais plena será nossa existência, mais serenos e focados no presente seremos.
No dia-a-dia, podemos aprender com as árvores esta emoção de tanta satisfação, de contentamento e alegria, tão bem representada pelo mais doce e saboroso fruto, ou pela mais bela e delicada flor – simples como uma árvore feliz.

Na foto que ilustra este post (de minha autoria), o “rebento” de um cajueiro, em Caraíva, na Bahia, em 2011.

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