Ipês de tantas flores, cores… e seus parentes

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publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 12 de outubro de 2016

Sempre que falo sobre espécies diferentes de árvores nativas brasileiras, ou até mesmo quando dou palestras sobre a importância da flora para nossas vidas, uma árvore em especial chama a atenção de todos: o ipê! Adoro compartilhar com todos a existência do ipê-verde, por exemplo. Você já sabia que ele existe? Vez ou outra, noto uma certa confusão entre as diversas espécies dessa planta e suas cores, como a presença mística do ipê-azul. Dedicarei este texto, então, ao ipê, para que todos possam conhecer um pouco mais sobre suas particularidades e aprofundem seu amor por esta árvore tão linda.

O mundo dos ipês é um mundo muito grande e – claro! – encantador. Começando por sua família botânica – Bignoniaceae –, que abraça 110 gêneros e cerca de 840 espécies de árvores, arbustos e lianas (cipós).

O Brasil em particular é considerado o maior centro de diversidade dessa família botânica, pois em todo território nacional, de norte ao sul do país, são encontrados 33 gêneros e 412 espécies. Destas, um total de 199 espécies são endêmicas, ou seja, ocorrem somente aqui e em nenhum outro local do mundo, estabelecendo, assim, uma relação altamente complexa de interação com todos os seres e sistemas do seu ambiente de ocorrência natural.

As lindas flores desta família – facilmente identificadas devido a seu formato de pequenas trombetas – são muito atrativas para grande parte da fauna, como por exemplo: vespas, abelhas, aves, morcegos, borboletas e mariposas. Algumas flores têm, até mesmo, finalidades alimentícias, como o ipê-amarelo, que pode ser saboreado em saladas.

Eis, aqui, duas árvores da família Bignoniaceae que costumamos encontrar com facilidade e não são brasileiras: espatódea e ipê-de-jardim.

Espatódea, tulipeira, árvore-de-bisnagas, tulipeira africana

flor-spathodeafruto-spathodeaNome científico: Spathodea campanulata

Origem: África

Particularidade: bastante comum na arborização urbana das cidades brasileiras, a espatódea também faz parte das lembranças de brincadeiras de infância – com seus botões florais e sépalas (área que sustenta as pétalas) as crianças jogam jatinhos de água nos amigos. Suas flores podem ser laranja ou amarelas.

Ipê-de-Jardim, amarelinho, bignônia-amarela, carobinha, guarã-guarã, ipê-mirim, sinos-amarelos

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Nome científico: Tecoma stans

Origem: Estados Unidos e México

Particularidade: seu porte pequeno, quase arbustiva e por não perder suas folhas ao florescer, tornou-se uma das árvores exóticas confundida com nossos ipês nativos mais comuns dos jardins residenciais e na arborização das cidades, principalmente como opção em calçadas onde passa fiação elétrica na parte superior. Muitas pessoas acreditam que é uma espécie brasileira, mas certamente não é o caso. Suas sementes são produzidas em quantidade grandiosa e o poder germinativo é alto, isso porque ela não encontra predadores de suas sementes em nossos biomas brasileiros. Sua presença tem sido monitorada para avaliar se está impactando negativamente a distribuição de espécies nativas – sendo considerada invasora.

Nossos ipês

ipes-flores-coresEm meio às espécies de ipê mais comuns aqui no Brasil – conhecendo um pouco mais do tamanho desse universo – é mais fácil perceber as diversas tonalidades de cor de suas flores; as diferenças nas estruturas das folhas compostas por três, quatro, cinco, seis ou sete folíolos; os detalhes de textura da casca; e a forma das vagens e das sementes. Cada um desses detalhes em conjunto pode nos apresentar espécies de ipê, ainda que similares, bastante particulares. Eles são muito mais do que os nomes que lhes foram dados obviamente pelo colorido de suas flores, como ipê-branco, ipê-rosa, ipê-amarelo, etc. Dentro de cada uma dessas categorizações simplistas, existe uma grande diversidade de espécies, de tamanhos e de áreas de ocorrência, muitas vezes diferenciadas.

flores-ipeamarelofolha-ipeamareloAgora faço uma provocação para você, leitor: procure apreciar os ipês também nos momentos em que eles não estão floridos.

Vamos praticar mais desse vínculo apreciativo e de cuidado com nossas árvores, mesmo quando elas estão em momentos de vida menos exuberantes? Assim, é possível reparar na tonalidade das folhas novas que brotam ou na cor que fica gradualmente alterada quando a árvore se prepara para desprender todas as folhas. E os pequenos brotos de flores ou crescimento das vagens? E as incríveis sementes? Já coletou algumas pelo caminho e imediatamente colocou-as para germinar?

flores-iperosaSuas sementes aladas são dispersadas pelo vento. São pequenas joias brilhantes e translúcidas. No miolo da membrana, o embrião de uma nova árvore. A madeira dos ipês é valorizada e reconhecida mundialmente por suas propriedades de resistência e dureza. Até hoje, toras inteiras são facilmente encontradas em carregamentos de extração madeireira ilegal.

Uma das espécies de ipê de flores rosadas contém, em suas estruturas, o princípio ativo e os medicamentos para tratamento oncológico. Os ipês também são conhecidos por diversos outros nomes populares, como estes:

ipê-amarelo, ipê-ouro,  ipê-da-serra, aipê, ipê-branco, ipê-mamono, ipê-mandioca, ipê-pardo, ipê-vacariano, ipê-tabaco, ipê-do-cerrado, ipê-dourado, ipezeiro, pau-d’arco, taipoca, piúva, piúna, ipê-roxo-de-bola, ipê-una, ipê-roxo-grande, ipê-de-minas, ipê-comum, ipê-reto, ipê-rosa, ipé, ipeúna, ipê-do-brejo, ipê-da-várzea

Ipê-azul existe?

flor-jacarandafruto-jacarandaO mais comum é confundir as tonalidades de roxo e azul. Como alguns ipês têm o nome popular ipê-roxo, muitas pessoas esperam encontrar flores roxas com tonalidade mais azulada durante as floradas. Normalmente, as espécies que chamamos de ipê-roxo na verdade apresentam flores em tom de rosa em uma tonalidade bastante forte, mas, mesmo assim, mais magenta (pink) do que azul.

No entanto, existem os jacarandás, também da família Bignoniaceae as espécies do gênero Jacaranda sp. São cerca de 36 espécies, sendo que 32 são endêmicas do Brasil. Por serem parentes da mesma família, as flores de todas essas espécies são muito similares em formato com as dos tradicionais ipês. E elas, sim, possuem tonalidade arroxeada-azulada. Por isso, quando algumas pessoas dizem que viram um ipê-roxo ou azul, na maioria das vezes estão se referindo aos jacarandás muito presentes em nossos caminhos.

Neste exato momento, na primavera, podemos encontrar inúmeros jacarandás floridos nas ruas arborizadas das cidades brasileiras. Lindos e tão incríveis como os ipês, é importante notar uma diferença entre eles: o formato das vagens, que lembram castanholas. Já as sementes, são bem parecidas, assim como as flores.

cybistax_antisyphilitica

E onde mora o ipê-verde?

Uma típica árvore do cerrado brasileiro – Cybistax antisyphilitica. Suas flores são realmente verdes, essa característica deve denotar que seus polinizadores a encontram mais devido seus atributos aromáticos do que visuais.

Possivelmente é bastante visitada por fauna de hábito de vida noturno. Quem já viu, marca o lugar para sempre voltar a encontrar. Quem ainda não viu, tenho certeza que vai querer plantar.

Para encerrar este post com muito carinho e emoção em conhecer mais sobre nossas árvores, vejam algumas fotos que fiz de alguns ipês-verdes-do-cerrado que vivem perto do escritório do Instituto Árvores Vivas na região central da cidade de São Paulo.

Fotos: Juliana Gatti (abertura – 2/4/5/6/7/8) e Wikimedia

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