Saúde, cidades e natureza

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publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 23 de março de 2016

Mais de 54% da população mundial vive em áreas urbanas, de acordo com dados de 2014 divulgados pela ONU. Estes ambientes onde se formaram as cidades foram ocupados, no principio, devido a boa qualidade ambiental, condições mais favoráveis para a vida humana. No entanto, a superpopulação, somada ao adensamento e à ocupação desordenada levaram as cidades a situações extremas de desequilíbrio e baixa qualidade de vida.

Entre os diversos aspectos que promovem este cenário nos grandes centros urbanos é a ausência de áreas verdes e naturais.

É verdade que, com o tempo, as pessoas se identificam cada vez mais com seus aparelhos eletroeletrônicos – celular, televisão, automóvel e caixas de concreto -, e nem percebem que estes não são os melhores companheiros para uma vida saudável. Mas é a natureza, em sua plenitude, com áreas de mata ciliar à margem dos rios e próxima de nascentes, com espaço para a vida de quaisquer seres vivos, sejam eles mamíferos, aves, répteis, anfíbios ou insetos, que realmente importa.

Já reparou como a natureza é a expressão mais diversa possível no universo? Observe os pontos de vegetação mais densa e fechada como a Mata Atlântica ou áreas com espécies mais retorcidas e espaçadas, adequadas a ambientes mais secos como o Cerrado. Toda essa diversidade tem um momento e uma condição para existir, além de milhares de anos de estruturação e organização. Para chegar até esse estado, aconteceram infinitas interações e relações entre todos os seres da flora e fauna que compõem essa paisagem. Mas nós humanos nem sabemos disso ou, se sabemos, esquecemos rapidamente.

Áreas verdes são tão imprescindíveis em nossas vidas – o que é facilmente apontado por todos os estudos de qualidade de vida realizados nas grandes cidades -, que a Sociedade Brasileira de Arquitetura e Urbanismo propõe que, para cada habitante de qualquer cidade, seja mantida uma área verde pública de 15 m², destinada à recreação. Em São Paulo, a média é bastante significativa – pouco mais de 12 m²/habitante -, mas isso se deve às grandes massas do Cinturão Verde da Cantareira e Serra do Mar. Sem elas, a média da cidade cai para cerca de 3 m² por habitante. Esta realidade demonstra que a distribuição de áreas verdes na capital paulista é muito irregular e ruim.

Para se obter e manter qualidade de vida nas grandes cidades, precisamos providenciar mais áreas, mesmo que menores, distribuídas de maneira regular. Cada pequeno espaço criado com diversidade de espécies de plantas, seja em nossas casas, seja nas escolas, nas praças e nas ruas do bairro onde moramos. Seja plantando uma árvore na praça, na calçada, no quintal ou na área livre do pátio da escola, ou até um jardim vertical, não importa! O importante é ter mais espaços de vegetação – em nossos caminhos ou áreas de convivência – para manter condições que propiciem mais qualidade de vida e saúde para todos.

O ideal, para um bom e rápido resultado, é constituir conjuntos com diversos tipos e espécies de plantas nativas do bioma onde moramos, com muitos tamanhos – árvores, arbustos e forrações -, atrativas por flores e frutas diferentes, que propiciarão condições de vida para muitos animais que também são importantes para a manutenção de nossa saúde nas áreas urbanas.

Mas como isso pode ser feito?

Primeiro devemos falar da importância da árvore para a nossa vida. Ela cria condições microclimáticas favoráveis e garante temperatura amena, umidade adequada, menor poluição do ar já que retém partículas químicas e gases poluentes. Além disso, oferece sombra, reduz a poluição sonora, faze bem para o espírito, o humor e a mente quando apreciamos sua beleza, suas flores e frutos, fornece alimentos ricos em nutrientes e muitos componentes com os quais são produzidos medicamentos, garante a qualidade do solo, evita a erosão com suas raízes, e por aí vai. A lista de serviços ambientais oferecidos pelas árvores é enorme. Por isso, costumo perguntar para quem participa dos cursos e oficinas que realizo (eu e minha equipe) com o Instituto Árvores Vivas: Quem precisa mais do outro? A árvore precisa de nós humanos ou nós é que precisamos delas?

Nas cidades também é óbvio o aspecto financeiro, nem sempre levado em conta: áreas arborizadas são mais valorizadas do que os bairros áridos, sem árvores, totalmente impermeabilizados. Árvores e canteiros permeáveis no solo, permitem a fluidez da água na época das chuvas: elas entram no solo e abastecem os lençóis freáticos que também são muito importantes como fontes de água doce. E, focando ainda na água, árvores mantêm os rios saudáveis, limpos e com nascentes sempre vivas.

A crise da água que vivemos – Sim, ela ainda é real! Pode parecer que não por causa das chuvas abundantes que têm caído sobre algumas regiões, mas essa crise não passará tão cedo veja o infográfio Água na Mídia do IDS para ter mais clareza – tem ligação direta com a má gestão, mas também o desmatamento já que as árvores ajudam a preservar as margens de rios e represas. Poucas chuvas ou chuvas irregulares e em condições extremas – muito excessivas no verão e raras no inverno, o que resulta num clima muito seco -, desequilibram a disponibilidade de água potável nas cidades.

O ambiente natural, além de sua importância para a saúde das cidades, é essencial para a saúde das pessoas, mas este é um tipo de saúde que não fica muito em evidência: a que é constituída desde a infância. Para todas as crianças, o contato com a natureza é essencial já que permite melhor desenvolvimento. A criança que pode experimentar a natureza com todos os seus sentidos – subir em árvores ou simplesmente ficar sentado na terra sob sua sombra, observar com atenção e paciência como a natureza se comporta, pode tocá-la, cheirá-la, se movimentar livremente nesse espaço – a oportunidade desse contato permite se desenvolver de maneira muito mais plena e saudável. Estudos recentes apontam que a falta de contato com a natureza é um dos principais fatores da depressão na vida adulta. Quem tem contato com a natureza eleva sua imunidade, melhora a saúde mental e emocional, torna-se mais equilibrado, desenvolve capacidades de aprendizado e processos investigativos e cognitivos de maneira muito mais satisfatória. A coordenação motora e a memória são beneficiadas e a alegria de ter vivido experiências tão bonitas na natureza acompanham qualquer indivíduo para sempre.

Neste momento, enfrentamos diversos desafios causados pelo descaso com que temos tratado a natureza do nosso planeta, do nosso país, das cidades e bairros. Enfrentamos a luta contra as mudanças climáticas e, consequentemente, vivemos o desafio do controle dos mosquitos Aedes aegypti, que transmitem tantas doenças e que afligem cada vez mais as pessoas, em nível local, mas também mundial.

Sabemos que o que propicia a multiplicação descontrolada dos mosquitos é a falta de saneamento básico, mas principalmente a falta dos predadores destes mosquitos no ambiente urbano. E quem são esses predadores? Por que não estão nas cidades? Muito simples: não existe condição ambiental para isso, não há áreas verdes estruturadas e funcionais para a vida dos predadores de mosquitos: aves, anfíbios, insetos como as libélulas (que se alimentam das larvas), morcegos frugívoros e insetívoros (que se alimentam de frutas, néctar de flores e insetos). Todos esses animais controlam as populações de mosquitos, mas nós os expulsamos de nossas cidades ao reduzir as áreas verdes. Seja por falta de conhecimento ou por acreditar que a natureza não é necessária para a vida humana e nem deve estar tão próxima de nossas casas, em nossos bairros. Dessa forma, criamos as condições perfeitas para que esse mosquito se reproduza livremente, sem nenhum tipo de controle, principalmente durante os períodos de calor.

Não é totalmente eficiente o combate ao mosquito com inseticidas, fumaça e controle rígido de recipientes com água. Sabemos que a temperatura mais elevada e o acúmulo de água são ambientes naturais para a vida e a proliferação destes insetos. Com base nessas informações – que, a cada dia, são mais disseminadas – é importante que todos, juntos, possam criar condições para que a natureza volte às cidades, seja onde for: e insisto – na rua de casa, na escola, no bairro, na praça – enriquecendo o verde com diversidade de espécies nativas, para criar um ambiente favorável para todos os animais. Assim a natureza mais equilibrada promoverá ambientes ainda saudáveis para toda a população.

É importante entender que cada planta e que cada animal têm uma função essencial nos ciclos e no equilíbrio da natureza. E querem ver só como uma informação errada pode prejudicar ainda mais o entendimento sobre o ecossistema e criar equívocos? Vi bromélias serem execradas como se fossem pontos de multiplicação do mosquito. Mas isso não é verdade! As bromélias são vivas, como a natureza é viva e dinâmica. A água que fica depositada na bromélia não está parada, ela é cíclica, é de onde a planta tira seu alimento. Os insetos dali viram nutrientes para a bromélia. É preciso saber como funciona a natureza, verdadeiramente, como são seus ciclos, como se dão as interações e como podemos reestabelecer estes processos, mantendo suas funções equilibradas nas cidades.

Nós, humanos, só temos a ganhar com a natureza saudável. Então, vamos colocar ‘mãos na massa’, plantar e criar condições melhores de vida nossos queridos sapos, libélulas, abelhas, aves, morcegos e, assim, criar um meio ambiente propício para todos.

Foto: Pixabay

5 Respostas para “Saúde, cidades e natureza

  1. Pingback: Saúde, cidades e natureza — Blog do Instituto Árvores Vivas | Eu Vivo a Melhor Idade·

  2. que arvores devo plantar para manter meu poço sempre com agua.

    ________________________________

    • Olá Zelia

      muitas árvores ajudam a proteger as águas, as espécies podem variar conforme o Bioma onde você está localizada.
      Cada região do país está conectada com um bioma, onde a vegetação é bastante diferente por exemplo, da Amazônia em relação à Mata Atlântica.
      Algumas espécies as vezes são encontradas em biomas diferentes, ou se não for a mesma espécie, muitas vezes o mesmo gênero botânico se comporta de forma similar quanto ao tipo de solo e volume de água. Por exemplo, o ingá, tapiá, sangra-d’água, jaboticabeira, palmeira-jerivá, palmeira-juçara entre outras.

      Esperamos ter lhe ajudado.

      Realizamos atendimento online gratuito à população com informações e feito continuamente, oferecendo direcionamento e orientação em todos os tipos de situação de cuidado e prevenção, identificação de espécies e indicação para situações de plantio.

      Caso tenha denúncias de maus tratos contra árvores e áreas verdes por favor acesse nosso formulário http://goo.gl/M3M8Xk

      Se você conhece uma árvore de pau-brasil você pode registrá-la aqui http://goo.gl/biiKCq

      Para ajudar a manter esses projetos gratuitos para todos instale o aplicativo OPolen em seu navegador (somente no computador) Chrome http://goo.gl/plVGGC e toda compra que você

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