Como aprender a identificar árvores, plantas, flores…

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publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 29 de março de 2016

Aprender a identificar árvores e plantas realmente foi um dos pontos mais importantes do início do Instituto Árvores Vivas. Eu já detinha uma ampla vivência junto à natureza, iniciada durante a infância vivida na casa dos meus avós com os quais aprendi diariamente. Mas foi só quando trabalhei no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) que percebi que conhecer nomes científicos e famílias não significa conhecer bem uma planta.

Você pode adquirir muito conhecimento sobre identificação de espécies arbóreas por meio de “chaves botânicas”, ou da identificação de madeiras, ou ainda da análise molecular. Melhor ainda se estes conhecimentos se somarem à prática de campo que, aos poucos, são transformados em sabedoria. Dessa forma, as plantas não serão mais somente o nome ou a função delas ou, ainda, a classificação que damos para elas. Com a experiência e a vivência prática, cada planta – mesmo que seja da mesma espécie -, se torna única e, inevitavelmente, você cria um relacionamento e vínculo com ela.

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Uma coisa que ficou muito clara pra mim, ao longo do tempo – e também que aprendi com especialistas em identificação, entre eles cientistas e mateiros – é que estudar espécies já conhecidas, identificar novas, reorganizar sua classificação científica, enfim, aprender tudo o que importa sobre as plantas é um processo contínuo e holístico.

Afinal, o conhecimento não é fixo. Além disso, as tecnologias de identificação mudam e são aprimoradas periodicamente. E existem, ainda, diversas maneiras de aprofundar conhecimentos a respeito das plantas, seja através da Botânica, da Ecologia e interações com animais, da história dos povos, dos usos, das receitas, dos princípios ativos, das poesias, das paisagens, das memórias, e por aí vai. Sem falar que a quantidade de espécies de plantas no planeta é enorme. Para se ter ideia dessa dimensão, todos os anos – somente no Brasil -, são identificadas cerca de 250 novas espécies por pesquisadores.

Brasil, o país mais biodiverso do mundo

Segundo dados oficiais internacionais do BGCI (Botanic Gardens Conservation International), estima-se a existência de cerca de 400 mil espécies de plantas no mundo. Recentemente, conforme reportagem publicada na revista Fapesp, com o trabalho de 575 botânicos brasileiros e de outros 14 países, a lista da Flora Brasileira foi atualizada para mais de 46 mil espécies. Publicado no fim de 2015, na revista Rodriguésia, que comemorava 80 anos, esse número coloca o Brasil em destaque no ranking de países com a maior riqueza de plantas no mundo: ele é o maior.

Mas como aprender sobre esse universo infinito e conseguir, de fato, conhecer mais sobre as espécies de árvores e plantas que nos rodeiam?

Há duas formas de desenvolver estes conhecimentos e sabedorias:
– uma é por meio de estudos como autodidata ou frequentando disciplinas e cursos específicos;
– a outra é aprendendo com os mais velhos, sejam eles mateiros, especialistas do seu bairro ou cidade, ou ainda com povos que usam tradicionalmente as plantas no dia-a-dia.

Eu estou sempre atenta a todas essas frentes de pesquisa porque sei que, mesmo estudando sobre as plantas durante a vida inteira, nunca conseguirei saber tudo sobre elas. Mas também acredito que, juntos, todos podemos saber mais.

A “bíblia” das árvores, guias, grupos de discussão e muitos livros

Iniciei minhas práticas de identificação com a famosa coleção de Harri Lorenzi: Árvores Brasileiras e Árvores Exóticas no Brasil. Foi um processo no qual uni leitura com prática e, ouso dizer, que o olhar artístico tem ajudado muito, desde então.

Enxergar as formas e a organização estrutural das plantas é essencial para aprender a identificá-la. A morfologia é um dos princípios da identificação de espécies. É preciso aprender a compreender a organização das folhas, sentir suas texturas, observar cuidadosamente desenhos e formatos para poder avançar.

Neste aspecto, as folhas são os primeiros elementos. Mas, de repente, você percebe que existem muitas folhas parecidas. Aí, você sente que precisa conhecer mais sobre as estruturas das flores, dos frutos, da arquitetura da copa, da casca, do formato da árvore como um todo, seu tamanho e até o local onde a planta está inserida em relação à dinâmica da floresta. Aí, sim, todos esses elementos, juntos, ajudam você a realizar uma identificação de sucesso.

Não, não é simples! Mas para aqueles que vivem nas cidades, existe uma vantagem, se é que posso dizer que isso é positivo. Na verdade, não acho, mas o fato é que a biodiversidade no meio urbano, na arborização urbana, é baixíssima. Além disso – e infelizmente -, a maioria das espécies escolhidas no último século para compor nossas ruas, parques, praças e avenidas, não é brasileira. Sendo assim, fica mais fácil aprender a identificar a maioria das espécies nas cidades. Claro que sempre vamos ter a alegria de encontrar espécies raras, em risco de extinção, ou até com grande relevância histórica.

De um tempo pra cá, ou seja, mais recentemente, os planos de arborização têm privilegiado o plantio de espécies nativas. Mas, ainda assim, valoriza-se as espécies mais fáceis de encontrar, comercialmente, o que empobrece o resultado, que não é nada se comparado com a diversidade de uma floresta, de verdade.

Recentemente, encontrei o Manual do Escoteiro Mirim, publicado na década de 70, com os personagens da Disney: Huguinho, Zezinho e Luizinho. Voltado para as crianças, apresenta muitas fichas de identificação e informação sobre espécies de diversas árvores nativas, além de fichas de animais também. Da mesma forma, existem inúmeros guias de jardinagem e paisagismo, impressos ou online.

A profundidade e o tipo de informação também são bastante diversos, apresentando o formato de guias mais populares ou mais científicos, por exemplo. Por isso, é bom ter várias fontes para se obter informações atualizadas. Há muitos livros para download em PDF como o incrível Flora Brasiliensis, já digitalizado.

Em minha trajetória de aprendizado, sempre consultei vários livros e logo comecei a fazer mapas da localização das árvores. Primeiro, no sitio dos meus avós, onde cresci, depois em parques, ruas e praças perto de casa. Hoje, no Instituto Árvores Vivas realizamos continuamente inventários com foco na visão cultural e histórica das espécies.

Junto com o aprendizado obtido com os livros, aprofundei minhas pesquisas por meio da participação em grupos de discussão, um deles foi o Árvores Brasileiras. Também fiz inúmeros cursos de identificação, jardinagem e paisagismo. Atuei como voluntária em projetos de mapeamento e identificação ligados ao Departamento de Botânica da USP (Universidade de São Paulo) – que tinha a coordenação do Prof. Dr. José Rubens Pirani, um dos maiores botânicos de nosso país.

Ainda leio constantemente obras da bibliografia nacional e internacional sobre o tema. Sempre visito os jardins botânicos das cidades para as quais viajo. Ou seja, não paro de estudar as árvores e as plantas do mundo, do Brasil e dos meus caminhos do dia-a-dia.

Também fico fascinada ao ler livros sobre etnobotânica, nos quais a sabedoria dos povos tradicionais em relação às plantas é organizada. Uma fonte de pesquisa muito relevante, na minha opinião, é a própria Embrapa, que possui bom e extenso material online e também impresso sobre grande diversidade de espécies.

Trocando (sementes e mudas) e aprendendo

Por último, pensando justamente nos encontros entre pessoas para promover a multiplicação oral do conhecimento, a conservação da biodiversidade e a segurança alimentar, desde 2010, o Instituto Árvores Vivas promove encontros em formato de piquenique para Troca de Sementes e Mudas, pelo menos na entrada de cada estação,  totalmente gratuitos e abertos à participação de todos, indistintamente.

Com esta iniciativa, queremos espalhar não só mudas e sementes, mas conhecimento, para que todos compreendam melhor nossas árvores e a flora nativas e endêmicas (restritas a uma região). Conhecendo mais, todos podem plantar com mais consciência e poder de escolha, com respeito pela diversidade brasileira que é tão rica e valiosa.

Desde a primeira edição dos piqueniques – que idealizei para compor a programação do Festival Cultivar, no início da Primavera -, já foram realizados 24 encontros só na cidade de São Paulo.

Finalizo este post, então, com um convite para quem estiver em São Paulo participar do próximo piquenique de Trocas de Sementes e Mudas, em 17/4, domingo, no Parque da Luz, no bairro do Bom Retiro, na capital paulista. Na verdade, estaremos voltando a esse parque, onde tudo começou, mas com novidades: uma delas é a parceria com o projeto Você Muda!

Espero você e desejo que, se ainda não tiver começado suas pesquisas sobre as árvores, que este encontro seja o motivo para você introduzi-las em sua rotina diária. E que, assim, a natureza passe a fazer mais parte de sua vida e de todos à sua volta.

Foto: fragmento de prancha botânica da Flora Brasiliensis  e infográfico novas espécies do Brasil da revista Fapesp

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