Sete árvores PANCs

sete-arvores-pancs

publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 10 de maio de 2016

A alegria de conhecer a origem viva dos nossos alimentos é indescritível. Já vi pessoas se emocionarem profundamente quando têm a oportunidade de fazer esse link. Trata-se de uma possibilidade de reverência à nossa própria existência. Conhecer a planta mãe que “entrega” sua raiz, seu fruto, as sementes, sua casca, folhas e flores para servir de alimento para cada um de nós todos os dias.

Uma das abordagens mais interessantes relacionadas ao mundo das plantas e que tem chamado muito a atenção das pessoas, nos últimos tempos, é a das PANCs ou Plantas Alimentícias Não Convencionais. Elas são exatamente isso: plantas com propriedades alimentares, mas pouco conhecidas, pouco consumidas, quase nunca reconhecidas ou valorizadas, mas que têm tanto a oferecer, como texturas e sabores novos para nosso organismo, para nossa experiência de vida.

Há algumas poucas semanas, no encontro de troca de sementes e mudas que realizamos – este ano em parceria com o projeto VC Muda! -, tive a oportunidade de caminhar pelas alamedas do Parque Jardim da Luz seguindo o olhar do Guilherme Ranieri, especialista em PANC e autor do blog Matos de Comer. Tudo foi encantador: o passeio e a quantidade de aprendizados, muito valiosos para a mudança de relação com o espaço urbano no dia-a-dia.

Assim também foi uma enorme alegria para mim e todos os presentes acompanhar a visita guiada por Neide Rigo do Come-se na expedição que organizamos durante o Festival Cultivar, no ano passado, na Horta Comunitária do Centro Cultural São Paulo.

A partir destas vivências guiadas, todos descobriram inúmeras herbáceas, arbustos, forrações, trepadeiras e tantos outros tipos de plantas diferentes para apreciar e saborear com consciência e respeito. Inspirada pelas PANCs, selecionei árvores nativas brasileirasainda não tão convencionais no prato dos brasileiros -, mas até que fáceis de encontrar nas ruas das cidades.

MONGUBA – Pachira aquatica
Hum…. Juro que sempre que encontrei essa árvore pelo caminho, prestei atenção para ver se tinha frutos. Um belo dia, em viagem pela Bahia, tive a alegria de encontrar sementes de monguba e saboreá-las. São deliciosas, mas devem ser consumidas sem exagero. Nativa da região amazônica e do Maranhão, a monguba é muito comum no meio urbano. Já a encontrei diversas vezes no interior e na capital paulista, como também na cidade do Rio de Janeiro. Suas flores são lindas e a casca do fruto – grandioso e marrom – é bastante texturizada. As sementes servem a inúmeros preparos: em torradas, são comparáveis às melhores amêndoas e castanhas; trituradas, são base para pães, bolos, paçocas e, até, para empanar peixes; cozidas, lembram as castanhas-portuguesa. Suas folhas jovens, ainda brotando, podem ser consumidas como verduras. Outro nome da monguba é castanheira-d’água fazendo a ponte com o uso importante das suas sementes.

CAMBUCI – Campomanesia phaea
O cambuci é uma PANC que já começa a ser mais conhecida por toda a população, principalmente pelo trabalho que tem sido realizado ao longo dos últimos anos para resgatar a sua cultura de consumo nas mais diferentes formas: sorvetes, bolos, cachaças, geleias, sucos da fruta e até molhos para acompanhar carnes. Nativa da Mata Atlântica, chegou quase a extinção. Comum na cidade de São Paulo, deu nome a um bairro central e, hoje, cada vez mais pessoas querem ter um pé de cambuci perto de casa. Suas frutas – o formato lembra um “disco voador” – são de sabor azedinho doce. A árvore é parente das conhecidas pitangueiras, jabuticabeiras e goiabeiras, mas ainda precisa ganhar mais notoriedade para perder o título de PANC.

JENIPAPO – Genipa americana (é a planta que aparece em primeiro, na montagem que abre este post)
Uma das ofertas mais conhecidas do jenipapo é seu pigmento para tingir tecidos e artesanatos. Mas seu fruto, quando colhido muito maduro,  já no chão, é muito utilizado no preparo de doces, sucos, sorvetes e licores. Algumas pessoas adoram, outras não gostam nem um pouco. Salgados podem virar picles e ser cozidos com carnes. Com o fruto verde, que não é comestível, o livro Plantas alimentícias não convencionais no Brasil sugere a receita de um bolo que, depois de assado, fica azul; é só juntar à massa a polpa de jenipapo verde, ainda na cor creme. Vale a experiência culinária para saborear um resultado curioso promovido por uma das riquezas da flora brasileira.

SAMAÚMA e PAINEIRA (terceira na imagem que ilustra este texto) – Ceiba speciosa, Ceiba pentandra
Nesta seleção de PANCs, estão duas espécies que nos trazem uma novidade na oferta de sabores e de alimentos. A samaúma é o que podemos chamar de uma PANC inteira porque podemos consumir suas folhas jovens, as sementes torradas ou germinadas, os frutos imaturos, os botões florais e até a madeira de seu tronco queimada, já que produz uma cinza rica em sais.

No caso da paineira, os registros de uso alimentar se referem mais às folhas e às sementes. E, em ambos os casos, os preparos são muito variados. Encontramos receitas como patê de folhas com ricota, bolinho de folhas, brotos de sementes cruas ou em sopas, frutos jovens preparados como quiabo. Toda essa diversidade de receitas e alimentos, só podia vir das mães da floresta!

ABIU – Pouteria caimito
Fruta abundante na Amazônia, mas também presente na Mata Atlântica de São Paulo até o Ceará. Pode ser consumida in natura com colher, evitando o látex da casca. Suas principais receitas feitas com a polpa são sorvetes, mousses, geleias e sucos, além de preparada como doce e ainda cozida ou assada, neste caso para ser consumida salgada. Difícil encontrar o fruto fresco para consumo, a não ser que tenha um pé no seu pomar.

CORTICEIRA E IPÊS – Erythrina falcata, Handoanthus chrysotrichus (imagem do meio da montagem que abre este texto), Tabebuia roseoalba
As flores que tanto chamam nossa atenção por colorirem as copas e a paisagem, principalmente no inverno, podem ser consumidas se preparadas com o devido cuidado. Receitas com as flores de eritrina são comumente consumidas na Argentina, temperadas com pimenta e cebola. As pétalas das flores são carnosas, com consistência similar a de cogumelos após refogados. Quando colhidas diretamente da copa ou quando recém caídas no solo, remove-se os cabinhos e o cálice da base. Resultam em ótimas combinações com alho e, até, em recheio de tortas ou pastéis.

Já as flores dos ipês-amarelos e ipês-brancos podem ser consumidas como saladas cruas, complementando folhas verdes e temperadas com limão, molho de soja, azeite. Outros preparos recomendados em literatura são as flores salteadas e empanadas. Não há necessidade de retirar a base da flor, mas pode-se usar somente as pétalas. Como elas são muito comuns na arborização urbana, depois de bem lavadas podem ser uma boa novidade para o paladar.

BARU – Dipteryx alata
As sementes são amêndoas saborosas, possuem grande concentração de proteínas, lipídios, fibras, ferro e zinco. A árvore é nativa da região Centro-Oeste do Brasil, comum no Cerrado de Minas Gerais. Dentro do fruto, há uma única semente. Em quantidade, as sementes podem ser torradas para serem consumidas como tira-gosto ou transformadas em farinha. Com o Baru se produz bolos, farofas e até pé-de-moleque deliciosos.

Estas são somente sete espécies. É pouco se pensarmos no grande mundo da diversidade da flora brasileira. Mesmo assim, já deu muita água na boca, não é mesmo? Conhecer mais sobre as árvores e plantas é assim: além de nos apaixonarmos por elas, vamos querer que estejam cada vez mais perto de nós!

Foto: Juliana Gatti/montagem de recortes de jenipapo, ipê-amarelo, paineira

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s