Abacateiros e mangueiras nas cidades

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publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 23 de agosto de 2016

Duas frutas incríveis em forma, cor, sabor, tamanho, aroma. Saborear uma delas vale por uma refeição. Sustentam, nutrem e ainda resgatam memórias de infância, de brincadeiras sob suas sombras. Mesmo em meio ao concreto paulistano é possível encontrar diversos exemplares de mangueiras e abacateiros plantados em calçadas, praças e parques. Como sou moradora e nascida nessa megalópole, além de ávida observadora de árvores, noto que muitos indivíduos dessas espécies concentram-se perto de pontos de taxi e pontos terminais de ônibus. Elas são como grandes mães e cuidadoras, fornecem suas sombras e frescor da umidade evaporada das folhas, são provedoras de néctar para os mais diversos polinizadores e, claro, chefs gourmets na produção de frutos grandes, suculentos com suas polpas deliciosas.

Água na boca, aqui, enquanto escrevo este post. Quem ainda não provou essas riquezas naturais, recomendo que faça isso urgente! Além de ganhar uma experiência incrível para o paladar, vai suprir o organismo com inúmeros nutrientes que elas fornecem.

Belém do Pará é a cidade das mangueiras. Certa vez, quando tive a alegria de visitar rapidamente a cidade, ainda no avião uma passageira compartilhou comigo o presente que recebeu das árvores cuidadoras. Ela, grávida, com uma certa fome, esperando o ônibus no ponto, sentiu um peso puxar bruscamente seu vestido para o chão, quando notou, uma manga havia caído no bolso de seu vestido. Agradeceu o presente e nutriu-se desse sabor. Eu havia sido convidada para dar uma palestra no TEDx Ver-o-peso (que você pode assistir no final deste texto) e compartilhei, lá, esta história. Em Belém, abracei algumas mangueiras incríveis e enormes que habitam praças e ruas da cidade. Só me lembro de ter visto mangueiras desse porte no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, local que todo amante da natureza deve visitar se tiver a oportunidade!

mangueiras-cidades-florA mangueira (Mangifera indica) já era domesticada na Índia, em 2.000 a.C.. Da família botânica Anacardiaceae, tem parentesco com o cajueiro e a aroeira. Esta família possui 83 gêneros e cerca de 860 espécies. Agora reconhecida mundialmente, a manga é chamada de rainha das frutas tropicais. Seu nome em sânscrito é amra. Introduzida por volta do ano mil na costa da África ocidental pelos Persas, chegou ao Sul da África e ao Brasil pelas mãos dos portugueses no século XVI. Em estado selvagem, pode ser encontrada no Sri Lanka e em reservas aos pés do Himalaia. Chega a 30 metros de altura e sua semente tem viabilidade germinativa de cerca de 100 dias. Pedaços da fruta mergulhados no limão duram mais sem escurecer. Possui vitamina A na polpa e, na África, é costume ferver a casca da fruta – rica em terebintina – para preparar remédio para cólica e contra disenteria.

IMG-20160814-WA0020E o abacateiro? Nativo da América Central é um fruta que foge à regra. Em 1 kg de polpa, pode conter 250g de gordura e o seu teor de açúcar é muito baixo – o equivalente a metade de uma laranja. Por isso, seu sabor não é doce nem ácido. Em sua família botânica, a Lauraceae, há 45 gêneros e incríveis 2.850 espécies, incluindo exemplares de árvores, arbustos e, até mesmo, parasitas. Nesta família, podem ser encontradas espécies aromáticas e condimentares como louro, canela, cânfora e madeiras como a imbuia. O abacate é utilizado em todo o mundo em receitas doces ou salgadas como saladas e molhos, por exemplo, o guacamole.

Cultivado desde 8.000 a.C. no México, é chamado aguacate, palavra derivada do asteca ahuacatl –  terminação “atle”. Vale a pena assistir (aqui) a edição especial sobre a árvore no programa Um pé de quê. No Brasil, ele foi oficialmente introduzido em 1809, mas as variedades de altitude mexicanas e guatelmaltecas, só foram melhoradas após 1925. Uma dica culinária: se for guardar ou esperar até o momento de servir, deixe a semente dentro de um vasilhame com a polpa. Essa ação evita seu escurecimento.

O óleo de abacate tem incontáveis usos, tanto para fins cosméticos, como medicinais. Persea americana pode atingir até 20m de alturasuas folhas têm propriedades diuréticas e o fruto é antianêmico. Para os índios da América Central, é árvore sagrada que dá força e virilidade. Comer sua fruta garante bom humor, vigor muscular e alguns dizem ser afrodisíaca. É rica em vitaminas A, B e E, além de potássio e muitos sais minerais, no entanto é deficiente em vitamina C. Dependendo da variedade de abacateiro, seus órgãos reprodutivos atingem maturação em horários diferentes, sendo assim, para acontecer a polinização, é preciso planejar o plantio de maneira a ter árvores que amadurecem nos horários diferentes no mesmo pomar.

Neste inverno, na capita paulista, já notei a floração de mangueiras e abacateiros, como grandes amigas companheiras. É fácil encontrá-las plantadas uma ao lado da outra, muitas vezes em reduzidos espaços em meio ao concreto. Unidas e persistentes em sua missão de vida, florescem lindamente, atraindo abelhas e outros pequenos insetos com o perfume de suas flores. Em breve, poderemos caminhar e encontrar pequenas frutas crescendo nas copas. Em alguns locais, na região centro-oeste de São Paulo – onde caminho com mais frequência -, já vi frutos de abacate maduro no chão servindo de alimento para um grande número de aves, principalmente sabiás.

Encontrar essas belezas nas calçadas não seria o mais indicado para os carros que, por vezes, são estacionados embaixo de suas copas. Mas, em vez de pensar em remover uma dessas árvores-mãe, fique atento: aprecie, encante-se com sua rica vida e encontre outro local para o seu veículo. Precisamos dar espaço e tempo para a vida natural e para cada árvore que nos oferece tantos benefícios. Podemos buscar soluções e saídas para a vida arbórea que já está plena e forte na cidade, cuidar dela e planejar adequadamente os novos plantios. Uma rede instalada embaixo da copa pode ser uma solução nesse caso.

Adoro estas árvores, também por mais um motivo especial. Pesquisar árvores é também pesquisar sua interação com a paisagem, com outros seres vivos e sobre a história natural. Toda planta possui seu sistema de polinização e dispersão de sementes conectado plenamente com a fauna e o ambiente. No caso do abacateiro e da mangueira, temos exemplos claros de que seus dispersores deveriam ser grandes, bem grandes. Pois, ao se alimentarem dos frutos inteiros, após a digestão levam suas sementes para longe da árvore-mãe. No caso do abacate, por estar aqui na América Central, o principal dispersor era a preguiça-gigante que, há cerca de 12 mil anos, ainda caminhava por estes territórios. Fascinante a viagem no tempo e os aprendizados que cada árvore pode nos dar. Até a próxima!

Fotos: Juliana Gatti

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