Coníferas: árvores da época dos dinossauros, ainda habitam regiões do Brasil, Estados Unidos e Nova Zelândia

publicado primeiro no portal Conexão Planeta em 06 de junho de 2017  

Todas as vezes que me deparo com coníferas – plantas mais conhecidas como pinheiros -, presto reverência. Fascinantes ancestrais das espécies que conhecemos hoje, já ocupavam o planeta terra no Período Jurássico a cerca de 190 milhões de anos atrás . Quando realizo o Passeio Verde (sobre o qual já falei aqui, no blog), que é uma caminhada com crianças e suas famílias, sempre levo os participantes para visitar pinheiros. Não perco a oportunidade de compartilhar a existência dessas históricas espécies com todos. Eu as chamo carinhosamente de “plantas dinossauro”, pois ambos conviveram nas mesmas paisagens: as coníferas e estes tão admirados animais.

Durante os últimos dez anos de pesquisas e trabalhos realizados com árvores, natureza e a humanidade, um dos aspectos que sempre me fascina é perceber o quanto nossa vida é pequena, curta e ainda tão frágil em relação a vida e a proporção de muitas espécies de árvores e plantas. Estas, talvez por já ocuparem nosso planeta há tanto tempo, desenvolveram habilidades adaptativas bastante importantes para garantir a sobrevivência das espécies. E, nós humanos, por certo, ainda temos muito a aprender sobre elas. Afinal, as árvores mais antigas do mundo, descobertas e avaliadas por pesquisadores, são milenares e, em quase sua maioria, são coníferas.

Aqui, em São Paulo, no Parque Jardim da Luz, os visitantes podem ter contato com diversas espécies de coníferas, originárias de muitos lugares diferentes do mundo. Algumas destas árvores são tão antigas quanto o parque, que tem cerca de 200 anos. Outras simbolizam o relacionamento das comunidades de todo o mundo com o Brasil, como é o caso do cipreste-português (Cupressus lusitanica), plantado em homenagem à comunidade Vasco da Gama. Ou a grandiosa Manila-copal (Agathis robusta) da família das araucárias, que foi presente do cônsul da Índia. Esta árvore fazia par com outra, da mesma espécie – cada uma ficava de um lado do portão de entrada na Avenida Tiradentes -, mas uma delas morreu ao ser atingida por um raio alguns anos atrás.

Lá também encontramos a araucária australiana (Araucaria bidiwilli) e – claro! -, nossa querida Araucaria angustifolia (pinheiro-do-paraná) nativa brasileira, compondo a vegetação de áreas frias e de altitude de nossa Mata Atlântica.

Alguns anos atrás tive a oportunidade de visitar uma araucária brasileira, centenária, em uma reserva na cidade de Canela, no Rio Grande do sul. Estimam que ela tenha mais de 700 anos e 42 m de altura. É uma sobrevivente: resistiu a uma intensa extração de suas companheiras e irmãs à volta.

Espécie criticamente ameaçada de extinção, segundo a classificação da IUCN (International Union for Conservation of Nature), a Araucaria angustifolia foi largamente utilizada para construção e produção de carvão, além de haver perdas inestimáveis em áreas de represamento no sul do país.

No local onde vive esta araucária quase milenar, também é possível ver um pouco da história da extração da espécie na região por meio de fotos históricas, e visualizar grandes colunas de nó de pinho que ainda estão preservadas. Onde existe araucária existe muita biodiversidade, gralhas – que também são responsáveis por sua semeadura – e muita água. Em São Paulo, até mesmo um rio e um bairro receberam nome de Pinheiros em referência à presença massiva de araucárias. Hoje, raramente encontramos alguma que resistiu por aqui.

Recentemente, participei de uma conferência na Nova Zelândia para compartilhar a experiência do programa Criança e Natureza, que realizamos no Instituto Árvores Vivas desde 2007. Nos três dias de folga do evento, fiz questão de visitar áreas naturais que preservam parentes de nossas araucárias. Por lá, dizem que uma kauri (Agathis australis) de dez mil anos chegou a ser cortada, e só souberam sua idade depois que a mataram.

Na foto de destaque deste post, está uma Tane Mahuta (Lord of The Forest ou Senhor da Floresta). Segundo a lenda Maori, Tane é quem dá a vida e todas as criaturas vivas são seus filhos. Sua idade é estimada em dois mil anos, com altura de aproximadamente 51 metros. Esta é a maior árvore da Nova Zelândia. Mas, também tive a alegria de conhecer a mais antiga: Te Matua Ngahere.

Te Matua Ngahere é o Pai da Floresta, com 30 metros de altura, menor que Tane porém mais velha: estima-se que tenha três mil anos. Nova Zelândia só começa a ser colonizada por navegadores da Polinésia no ano 950D.C.. Antes disso, toda sua natureza permaneceu intocada e preservada.

Atualmente, a vida destas árvores corre séria ameaça de contaminação e para evitar a disseminação da doença fúngica – que chegou à ilha com máquinas de grande porte vindas da Europa no pós-guerra -, há um grande esforço dos parques nacionais da Nova Zelândia. Todos os acessos às áreas das florestas das kauris contam com um imenso aparato de desinfecção dos sapatos dos visitantes na entrada e saída das trilhas, além de inúmeras rampas elevadas para a caminhada dentro das florestas, perto das raízes das árvores, pois são muito superficiais e vulneráveis à contaminação.

As maiores árvores do mundo, são as sequoias (Sequoiadendron giganteum). No Brasil, podemos encontrá-las em alguns parques como o Parque das Sequoias, também localizado em Canela, no Rio Grande do Sul. Mas é nos Estados Unidos que residem as maiores e mais antigas já registradas. O General Sherman, nome dado à maior sequoia que existe por lá, tem 83 metros de altura segundo informações do Serviço dos Parques Nacionais.

A árvore mais antiga conhecida também fica nos Estados Unidos na região do Parque White Mountains, na Califórnia. Nele, residem indivíduos do pinheiro-bristlecone (Pinus longaeva), onde foi datada a árvore viva mais antiga do mundo, com 5.070 anos de idade. Mas sua localização precisa é mantida em segredo para sua devida proteção. De característica diferente das outras coníferas que citamos até aqui, elas são extremamente resistentes a condições de vida severas e de solos muito pobres de nutrientes e áridos. Essa resiliência que lhe confere tanta força e vida, dá aos indivíduos da espécie um formato contorcido e escultural.

Na próxima vez que você encontrar um pinheiro, mesmo aquele típico de Natal, honre sua existência no planeta.

Fotos: Juliana Gatti/acervo pessoal (Tane Mahuta), Cesar W. Filho/Pixabay e Rick Cain/National Park Service

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